Alçapão lotado, bexigas e rojões por todo lado, bandeiras de bambu inquietas, torcida apoiando sem cansar o time que, até os últimos 5 minutos de jogo, seria vice. Com um gol apenas, este time seria campeão do campeonato. Uma final eletrizante, parou a cidade inteira. A cidade maravilhosa do Rio de Janeiro estava com os ouvidos atentos ao radinho, olhos vidrados na TV durante o jgo entre Vasco e Flamengo, pelo campeonato carioca de 2001.
O time rubro-negro tinha sido bicampeão Carioca, e queria mais. Vencia a segunda partida da final contra seu arqui-rival por 2 a 1. E não era o suficiente. Nas arquibancadas, a monumental torcida do Flamengo e o enorme complô de Vascaínos, Tricolores, Botafoguenses aos gritos de "ôoo, vamo vira Vascooo". A felicidade em ver o maior rival, com uma belíssima esquadra, cair, valia torcer para o Vasco. Os cruzmaltinos já comemoravam, com o coração já na garganta, querendo deixar escapar o grito de campeão. Uma virada de mesa, a esta altura, era improvável, quase impossível. Mas esqueceram de avisar toda essa nação carioca, que o futebol não é lógico, muito menos justo.
Aos 42 minutos do segundo tempo, o árbitro marca uma falta da intermediária para o Clube de Regatas Flamengo.
Uma falta despretenciosa, sem muito o que fazer. Já os mais fanáticos, viam esta cobrança como a vida, a saída da zombação de toda nação carioca. Petkovic também. Ele ajeita a bola com carinho e, lentamente, todos os ruídos em sua volta, não existem mais. Pet vê a bola, e o gol. Além do arco, escuridão, incerteza e glória. Respira a última vez e se dirige, com cuidado, para a redonda. Lentamente, enquanto o espaço entre a bola e seus pés magicos diminui, o batimento cardíaco de Flamenguistas espera angustiado. Preces a Deus, pois só um milagre guardaria a pelota na "caixa".
Os dois segundos mais longos da vida de Flamenguistas, no curto espaço de tempo em que a bola viaja em direção à meta. O coração desacelera, a respiração não existe, são dois segundos no vácuo. Sua garganta se prepara, seus olhos fixam a bola, seus músculos se contraem. Como quem espera a morte,
os rubro-negros, TODOS, esperavam esta bola. Era ou consagração ou desespero. Unhas sendo roídas, cabelos descabelados, sour frio na cara, coração parando. Pernas trêmulas, paralisação. A redonda viaja, atravessa a enorme barreira, que, nesta hora era a maior muralha do universo. O estádio está quieto, faltam pouco menos de um segundo para a glória.
Enquanto a bola viaja, tensão sobe, expectativa sobe, adrenalina. Com uma classe que apenas grandes artistas da bola têm, Petkovic vê sua bola, batida de uns 38 metros, entrar, com leveza, no ângulo esquerdo da meta vascaína.
Não há como descrever o que vem em seguida.
O mundo cai. O grande Maracanã se torna pequeno demais para esta torcida, para a felicidade da nação rubro-negra, para o êxito dos pulos de Pet. As arquibancadas vêm abaixo, ninguém parece acreditar. O grito de GOL ecoa na cabeça de todos os que estão presentes. Um pesadelo para vascaínos, tri-vice, o maior sonho sendo realizado pelos Flamenguistas. Como diria o grande Nelson Rodrigues, é coisa do Sobrenatural de Almeida, algo que não tem como explicar. Um momento que jamais será esquecido por nenhum amante do futebol, uma cena marcante.
Há outros momentos como esse neste esporte maravilhoso, um chute no fim do jogo que muda a história de tudo. Com apenas um chute, jogadores são capazes de reverter uma situação dolorosa, como a Libertadores de 2008, com Washington marcando aos 47 do segundo tempo. São momentos dolorosos, difíceis de serem superados, mas por outro lado, a melhor sensação para os que vencem. Estes dois segundos em que a bola viaja até entrar no gol trazem a melhor sensação que define o futebol - algo imprevisível, tenso, maravilhoso, indescritível, impressionante. Aí esta a magia da arte dos pés.
P.S.:
Clique aqui para ver o vídeo da decisão de 2001.
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Clique aqui para ver a narração desta mesma decisão por um Vascaíno fanático. Vale a pena para dar risadas!